
Era uma vez, numa curva de rio de águas verdes, uma lontra filhote chamada Nara, que achava que brincadeira boa era brincadeira molhada. Ela escorregava pelo barranco de lama, mergulhava de barriga, rodopiava debaixo d'água e voltava para cima espirrando gotinhas para todo lado. Só uma coisa incomodava Nara: o vizinho novo, que nunca queria brincar. O vizinho novo era um jabuti chamado Ozório. Ele tinha chegado fazia poucos dias e morava debaixo de um pé de ingá, bem pertinho da margem. Tinha um casco bonito, cheio de desenhos amarelos, e andava devagar, um passo de cada vez. No primeiro dia, Nara foi logo convidando: — Vem escorregar no barranco! É a melhor coisa do mundo! Ozório olhou o barranco, olhou o rio e encolheu um pouquinho o pescoço. — Hoje não, obrigado. No segundo dia, Nara tentou de novo: — Vem brincar de pega-pega no fundo! Eu deixo você começar na frente! — Hoje não, obrigado — repetiu Ozório. No terceiro dia, ela nem esperou a resposta. Saiu bufando e contou para o irmão mais velho: — Esse jabuti é um chato. Não gosta de nada. Só fica lá parado, olhando. — Olhando o quê? — perguntou o irmão. Nara abriu a boca e fechou. Não sabia. Nunca tinha reparado. Naquela tarde, enquanto brincava com os primos, ela espiou a margem. Ozório estava lá, debaixo do ingá, com o pescoço bem esticado. Não olhava para as árvores nem para o céu. Olhava para o rio. Olhava para eles. Quando os filhotes davam um mergulho engraçado, a boca dele fazia um risquinho de sorriso. Quando todos sumiam debaixo d'água, o pescoço se esticava mais ainda, procurando. "Ué", pensou Nara. "Chato não olha desse jeito." Ela saiu da água, sacudiu o pelo e foi até lá. Dessa vez, não convidou para nada. Só deitou na areia, ao lado dele, com o queixo no chão, na mesma altura dos olhos do jabuti. E dali tudo era diferente. O barranco, que para ela era um escorregador, dali parecia uma parede enorme e lisa. O rio, que para ela era um quintal, dali era largo, fundo e apressado. E as brincadeiras ficavam longe, tão longe que mal dava para ouvir as risadas. — Daqui é tudo longe — disse Nara, baixinho. — É — respondeu Ozório. — Eu não sei nadar no fundo. Meu casco é pesado, eu afundo. E, se eu descer aquele barranco, não consigo subir de volta. Nara ficou quieta um pouco. Sentiu um apertinho no peito. Três dias chamando o vizinho para fazer justamente as coisas que ele não podia fazer! E ainda tinha dito que ele era chato. — Eu achei que você não queria — confessou ela. — Eu queria muito — disse Ozório. — Só não queria daquele jeito. Nara levantou num pulo. — Então me espera aqui! Ela correu pela margem, farejando, procurando. Passou pelo barranco, passou pelas pedras grandes e, depois da curva, achou o que queria: uma prainha onde o rio se espalhava bem raso, tão raso que a água mal cobria as patas dela. O fundo era de areia fininha, e a correnteza ali passava devagar, fazendo cosquinha. Nara voltou e foi andando ao lado de Ozório até a prainha. Demorou. Um passo de jabuti, depois outro. As patas dela coçavam de vontade de correr, mas ela foi contando as borboletas do caminho para o tempo passar. Contou onze. Quando chegaram, Ozório pôs uma pata na água. Depois a outra. A água fresquinha bateu na barriga do casco, e ele soltou um suspiro comprido. — Ah... que gostoso. — Agora a brincadeira — disse Nara. — Só que eu ainda não sei qual é. Qual você conhece? Ozório pensou. Então empurrou com o focinho uma sementinha de ingá, que saiu boiando devagar. — Corrida de sementes. Cada um solta a sua, e ganha a que chegar primeiro naquela pedra. Era uma brincadeira lenta. Era uma brincadeira de ficar olhando. Nara nunca tinha brincado de nada parecido. Na primeira corrida, ela se mexeu tanto que espantou a própria semente para fora do caminho. Na segunda, aprendeu a ficar paradinha, torcendo com o corpo inteiro. Na terceira, a semente de Ozório ganhou, e ele riu um riso rouco e gostoso, que ela ainda não conhecia. Os primos lontras apareceram, curiosos, e quiseram entrar. Logo havia sete sementes na corrida e uma gritaria na prainha. O sol foi baixando e pintou o rio de dourado. Uma por uma, as mães chamaram os filhotes para as tocas. Ozório fez o caminho de volta até o pé de ingá, e Nara foi ao lado dele outra vez, um passo de cada vez. Dessa vez, contou vaga-lumes. — Amanhã tem prainha? — perguntou ele, já puxando as patas para dentro do casco. — Amanhã tem prainha — disse Nara. E o rio seguiu cantando baixinho, enquanto os dois vizinhos dormiam.