
Era uma vez, numa vila de telhados vermelhos, uma padaria pequena onde morava uma coisa viva dentro de um pote de barro. Não era bicho nem planta. Era a massa-mãe, uma massa macia e cheia de bolhinhas, que o padeiro Anselmo alimentava todos os dias com farinha e água. Era um pedacinho dela que fazia crescer todos os pães da vila. E, naquela semana, pela primeira vez, quem ia cuidar do pote era uma menina chamada Rosa. Rosa ajudava na padaria todas as manhãs, varrendo a farinha do chão e arrumando os cestos. Quando o padeiro Anselmo precisou viajar três dias para buscar farinha nova no moinho do outro lado do vale, ele chamou a menina para perto do pote. — Esta massa é mais velha do que eu — disse ele. — Foi da minha avó. Ela precisa comer uma vez por dia: duas colheres de farinha, uma caneca de água, e mexer devagar. Dona Olívia vai assar os pães enquanto eu estiver fora, mas o forno já dá trabalho demais para ela. A massa precisa de alguém só dela. Você cuida? Rosa estufou o peito. — Cuido. Prometo. No primeiro dia, ela fez tudo direitinho. Duas colheres de farinha, uma caneca de água, mexer devagar. A massa fez "ploc, ploc", soltando bolhinhas, e Rosa achou que aquilo era um jeito de dizer obrigada. No segundo dia, bem na hora de alimentar a massa, um som de flauta e tambor entrou pela janela. Na praça, uma carroça colorida estava abrindo as cortinas: era um teatro de bonecos! Fazia mais de um ano que nenhum passava pela vila. "Eu só vou ver o comecinho", pensou Rosa. "A massa espera um pouquinho." Mas o comecinho tinha um dragão de pano que espirrava confete. E o meio tinha um cavaleiro atrapalhado que montava o cavalo ao contrário. E o fim tinha uma música que todas as crianças cantaram juntas. Depois já era hora do jantar, e Rosa caiu na cama com a cabeça cheia de dragões. Na manhã seguinte, ela entrou na padaria cantarolando. Foi até o pote, levantou o paninho e parou de cantar. A massa estava murcha. Baixinha, no fundo do pote, sem uma bolhinha sequer. Por cima, uma aguinha cinzenta. E o cheiro era azedo, de fazer franzir o nariz. O coração de Rosa bateu depressa. A massa da avó do padeiro! Ela olhou para os lados. Dona Olívia estava de costas, tirando pães do forno com a pá comprida. Ninguém tinha visto. Rosa podia cobrir o pote de novo e esperar o padeiro voltar. Podia dizer que não sabia o que tinha acontecido. A massa não ia contar nada. Rosa segurou o paninho, com os dedos tremendo. Olhou para a massa quietinha lá no fundo, que tinha passado a noite inteira com fome, esperando por ela. Largou o paninho e foi até o forno. — Dona Olívia — chamou, com a voz fininha. — Eu não dei comida para a massa ontem. Fui ver os bonecos e esqueci. Ela está murcha. Acho que eu estraguei. Dona Olívia limpou as mãos no avental e veio olhar. Cheirou o pote. Ficou séria um instante. — Estragada não está. Está fraca e com muita fome. Massa fraca precisa comer pouquinho, muitas vezes, até a força voltar. Dá muito mais trabalho do que cuidar todo dia. — Eu faço — disse Rosa. E fez. De manhã, tirou a aguinha cinzenta, pôs uma colher de farinha, um golinho de água, e mexeu devagar. Na hora do almoço, de novo. No meio da tarde, a flauta e o tambor tocaram outra vez na praça: era a última apresentação dos bonequeiros antes de irem embora. Rosa foi até a janela. Viu a cortina colorida se abrindo. Viu as outras crianças correndo. Respirou fundo, voltou para o pote e pôs mais uma colher de farinha. — Ploc — fez a massa, bem baixinho. Uma bolhinha só. Rosa ficou ali até o sol baixar, ouvindo de longe a música do dragão. Antes de ir para casa, alimentou a massa mais uma vez e cobriu o pote com o paninho, bem ajeitado. No outro dia, chegou antes de o galo cantar. Levantou o paninho devagar, quase sem coragem. A massa tinha subido até a beira do pote, gordinha, cheia de bolhas, com cheiro bom de pão. — Ploc, ploc, ploc! Naquela tarde, o padeiro Anselmo voltou com a carroça carregada de farinha. Antes que ele tirasse o chapéu, Rosa contou tudo: os bonecos, o esquecimento, a massa murcha, as colherinhas de farinha o dia inteiro. O padeiro ouviu até o fim. Depois foi até o pote, olhou as bolhas, cheirou e fez que sim com a cabeça, devagar. — Na semana que vem tenho de ir à feira — disse ele. — Já sei com quem o pote vai ficar. Naquela noite, a vila inteira dormiu com cheiro de pão novo no ar. E, dentro do pote de barro, a massa-mãe respirava devagarinho, crescendo no escuro.