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Histórias para a hora de dormir
Miguel e o Assobio Que Não Saía
Era uma vez
Miguel e o Assobio Que Não Saía
Resiliência8 min · 3-6 anos (geral)
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Era uma vez…

Era uma vez um menino chamado Miguel, que passava as férias no sítio do avô e queria muito, muito mesmo, aprender a assobiar. Não era um assobio qualquer. Era o assobio do vovô Chico: fino, comprido, que atravessava o pasto inteiro e fazia o cachorro Farelo vir correndo lá de longe, com as orelhas balançando. Miguel fazia biquinho, soprava com toda a força, e só saía vento. — Fffffff. Farelo, deitado na varanda, nem abria o olho. — Vô, como é que faz? — perguntou Miguel, no primeiro dia. Vovô Chico mostrou devagar. Fez um biquinho pequeno, como quem vai dar beijo em passarinho, pôs a língua quietinha lá embaixo e soprou de leve. — Fiiiiiu! Farelo levantou num pulo. — Agora você. Miguel fez o biquinho. Soprou. — Fffffff. — Está quase — disse o avô. — O meu levou um tempão para sair. Assobio é que nem passarinho arisco: só aparece quando quer. Miguel não queria esperar passarinho nenhum. Queria assobiar agora. Treinou a manhã inteira: no balanço, no galinheiro, na beira do açude. Soprou tanto que ficou tonto e teve de sentar no degrau. No segundo dia, treinou de novo. A prima Luísa, que era um ano mais velha, passou por ele assobiando uma musiquinha inteira, sem nem pensar. — É fácil, ó! — disse ela. Miguel sentiu o rosto ferver. Tentou com mais força. Saiu vento e um pouco de cuspe. — Fffffpt. Luísa riu. Não foi por mal, mas riu. Miguel correu para trás do paiol, sentou no chão e cruzou os braços com força. — Não quero mais. Assobiar é bobo. Eu chamo o Farelo gritando e pronto. Ficou ali um bom tempo, emburrado, riscando a terra com um graveto. Lá do pasto, veio o assobio do avô, fino e comprido, e ele viu Farelo passar feito um raio amarelo. Miguel olhou para o graveto. Olhou para o pasto. Fez um biquinho bem pequeno, escondido, só para ver. — Fffffff. Suspirou. Mas não desfez o biquinho. No terceiro dia, ele mudou de jeito. Em vez de soprar forte, soprou fraco. Em vez de biquinho grande, biquinho miúdo. Experimentou a língua para cima, para baixo, encostada nos dentes. Parecia um cientista de bocas. Vovô Chico, consertando a cerca, espiava de longe e não dizia nada. No quarto dia, choveu, e Miguel treinou olhando a chuva pela janela. No quinto, treinou enquanto ajudava a vovó a debulhar milho. No sexto, estava tão acostumado que treinava sem perceber, andando pelo quintal: ffff, ffff, ffff. Foi no sétimo dia, na hora em que o sol ia ficando cor de abóbora. Miguel estava sentado no degrau da varanda dos fundos, com as pernas esticadas, pensando em outra coisa. Fez o biquinho de sempre, soprou de leve e... — ...iu. Ele arregalou os olhos. Tinha sido um barulhinho de nada, curto, torto, mais fino do que um pio de pintinho. Mas não era vento. Lá no meio do quintal, Farelo levantou uma orelha. Só uma. Miguel ficou paradinho, com medo de espantar o assobio. Ajeitou a boca do mesmíssimo jeito. Soprou. — Fiu. A outra orelha de Farelo subiu. — Fiiu! Farelo ficou de pé, virou a cabeça de lado, confuso, procurando o vovô Chico. Mas o vovô estava ali mesmo, encostado no mourão da cerca, de braços cruzados e boca fechada. Miguel encheu o peito de ar, mas soprou devagarinho, como tinha aprendido. — Fiiiiu! Não atravessou o pasto inteiro. Atravessou só o quintal. Mas Farelo veio. Veio correndo, com as orelhas balançando, e pulou no degrau com as duas patas, lambendo o rosto de Miguel de baixo para cima. — Vô! Vô, você viu? Ele veio! Eu chamei e ele veio! — Vi — disse o vovô Chico, e o bigode dele tremia de tanto sorrir. — O passarinho arisco apareceu. Luísa chegou correndo, querendo ouvir. Miguel assobiou de novo. Saiu meio torto, falhando no meio. — O seu ainda é curtinho — disse ela. — É — concordou Miguel, coçando a cabeça de Farelo. — Amanhã eu estico mais um pouco. Luísa pensou um instante. — Quer que eu te ensine a musiquinha? Dá para fazer com assobio curto. Os dois ficaram ali no degrau até a vovó chamar para a sopa, um assobiando inteiro, o outro assobiando aos pedacinhos, e Farelo no meio, sem saber para quem olhar. Naquela noite, o sítio ficou escuro e cheio de grilos. Miguel deitou na cama de molas, cansado e contente. Farelo, que sempre dormia na varanda, veio se enrolar bem debaixo da janela dele. Miguel fez um biquinho no escuro e soltou um assobio pequenino, só para conferir se ainda estava lá. Estava.

Para conversar
Miguel soprou vento por sete dias antes de sair o primeiro assobio. O que você acha que fez ele fazer o biquinho de novo, lá atrás do paiol, mesmo depois de dizer que não queria mais?
Esta história também fala dePaciênciaCriatividade
Era uma vez… Terminamos!
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