
Era uma vez, num reino de montanhas onde o inverno era comprido e gelado, uma princesa chamada Aurora, que tinha o melhor cantinho do castelo inteiro. Ficava no quarto dela, no alto da torre: um tapete redondo, bem debaixo da única janela grande que recebia sol a manhã toda. O resto do castelo era de pedra fria e corredores escuros. E, bem naquele inverno, alguém lá embaixo estava precisando muito de sol. Aurora ainda não sabia disso. Todas as manhãs, ela deitava no tapete com suas bonecas e seus livros de figuras e ficava ali, quentinha feito um gato. Era o seu lugar preferido no mundo. Lá ninguém falava alto, ninguém mexia nas coisas dela, e a luz desenhava um quadrado dourado no chão. Numa manhã, um botão do seu casaco caiu, e Aurora desceu a escada comprida até a sala de costura para pedir que Dona Berta pregasse. A sala de costura ficava do lado da sombra. A janela era estreitinha e dava para um muro. Dona Berta, a costureira mais antiga do castelo, estava sentada perto de um lampião, com um vestido no colo, apertando os olhos. De vez em quando, largava a agulha, esfregava as mãos uma na outra e soprava nos dedos. — Está com frio, Dona Berta? — perguntou Aurora. — Um pouquinho nos dedos, princesa. Dedo frio não obedece. E os meus olhos já não gostam de linha escura em dia escuro. — Ela riu baixinho. — Mas dá-se um jeito. Pregou o botão, devagar. Errou o furo duas vezes. Aurora subiu de volta pensando naquilo. Pegou sua manta mais grossa, desceu outra vez e pôs nos ombros da costureira. — Que carinho, princesa! Obrigada. Aurora voltou para o tapete, satisfeita. Mas, no dia seguinte, quando passou pela sala de costura, viu Dona Berta com a manta nos ombros... e ainda soprando nos dedos, ainda apertando os olhos junto do lampião. Manta não esquenta ponta de dedo. E manta não clareia nada. A princesa subiu devagar, degrau por degrau. Deitou no seu quadrado de sol. Estava quentinho como sempre, mas ela não conseguiu prestar atenção no livro. Sabia muito bem o que resolveria. E não queria que fosse aquilo. "É o meu cantinho", pensou. "Se a Dona Berta vier, vai ter cadeira, cesto, pano, linha por todo lado. Não vai sobrar lugar para as bonecas. E ela canta enquanto costura." Aurora abraçou os joelhos. O sol esquentava suas costas. Ela olhou para as próprias mãos, quentinhas, e lembrou das mãos de Dona Berta, vermelhas de frio. Levantou. Empurrou a casinha das bonecas para o canto. Enrolou metade do tapete. Arrastou a cadeira de balanço, que era pesada e rangia, até bem debaixo da janela, no meio do quadrado dourado. Depois desceu a escada correndo. — Dona Berta, pegue o seu cesto. Lá em cima tem um lugar para a senhora. A costureira subiu devagar, segurando no corrimão. Quando entrou no quarto e viu a cadeira no sol, parou na porta. — Mas, princesa... este é o seu cantinho. — É grande. Dá para duas — disse Aurora, e só então reparou que tinha deixado para si mesma a beiradinha onde o sol quase não chegava. Dona Berta sentou. Estendeu as mãos na luz, como quem aquece os dedos numa xícara de chá. Enfiou a linha na agulha na primeira tentativa. E cantou, é claro. Uma cantiga antiga, baixinha. Aurora descobriu que não atrapalhava nada. Era até bom de ouvir. No outro dia, veio a cozinheira, perguntando se podia descascar ervilhas ali, só um pouquinho, porque a cozinha era um gelo longe do fogão. Depois veio o pajem, com as botas do rei para engraxar. Depois, o velho escrivão, com um banquinho debaixo do braço. O cantinho de Aurora nunca mais foi quieto. Tinha conversa, tinha casca de ervilha, tinha gente pedindo licença para passar. O quadrado de sol ficou tão cheio que, às vezes, sobrava para a princesa só um triângulo. Em algumas manhãs, ela sentia saudade do silêncio e suspirava. Mas aprendeu a pregar botão. Aprendeu a cantiga de Dona Berta, e mais três. O escrivão contava histórias do tempo em que o rei era menino e tinha medo de ganso, e Aurora ria até a barriga doer. Quando o inverno estava quase no fim, Dona Berta lhe entregou um embrulho. Dentro, havia uma almofada redonda, feita de retalhos: um pedaço do avental da cozinheira, um pedaço do lenço do pajem, um pedaço de veludo da capa do escrivão. Bem no meio, bordado com linha amarela, um solzinho. — Para a sua beiradinha — disse a costureira. Naquela tarde, o sol foi descendo atrás das montanhas, e o quadrado dourado subiu pela parede até sumir. Um por um, todos se despediram e desceram a escada. Aurora ficou sozinha no quarto, enfim quieto. Deitou a cabeça na almofada de retalhos, que ainda estava morna. E achou que o cantinho dela tinha ficado muito maior.