
Era uma vez um homem chamado Isaque. Ele morava numa terra seca, onde chovia pouco. Lá, água valia mais que ouro. Quem tinha um poço tinha tudo: água para beber, para as ovelhas, para a horta. Isaque plantou naquela terra, e Deus o abençoou. A colheita veio enorme. Os rebanhos cresceram. Havia ovelhas, bois e muita gente trabalhando com ele. Os vizinhos, os filisteus, olharam aquilo e ficaram com inveja. Um dia, pegaram terra e encheram os poços que Abraão, o pai de Isaque, tinha cavado muito tempo antes. Encheram até a boca. Não sobrou uma gota. Depois o rei daquele lugar, Abimeleque, chamou Isaque. — Vá embora daqui — disse o rei. — Você ficou forte demais para nós. Isaque podia ter gritado. Podia ter brigado. Ele tinha muitos homens. Mas juntou as tendas, chamou os pastores e foi embora devagar, com as ovelhas balindo atrás. Armou as tendas num vale. Ali também havia poços antigos do seu pai, todos tapados. Isaque mandou tirar a terra de cada um. Balde por balde. E deu a eles os mesmos nomes que o pai tinha dado. Depois, os servos de Isaque cavaram num lugar novo do vale. Cavaram, cavaram, cavaram. O sol queimava as costas. As mãos doíam. Até que um deles gritou lá do fundo: — Água! Água boa, de nascente! Todos correram para ver. A água subia fresquinha. As ovelhas beberam. As crianças molharam os pés. Mas a alegria durou pouco. Os pastores daquele lugar chegaram de cara fechada. — Essa água é nossa! — disseram. Os servos de Isaque olharam para ele. Tantos dias cavando! As mãos ainda estavam cheias de bolhas. Isaque olhou o poço. Olhou os pastores bravos. Respirou fundo. — Fiquem com ele — disse. Chamou aquele poço de Eseque, que quer dizer briga. E levou sua gente mais para a frente. Cavaram outro poço. De novo a pá batendo na pedra. De novo o suor, a poeira, a sede. De novo a água subiu, limpa e fria. E de novo os pastores vieram. — Esse também é nosso! Um servo jovem bateu o pé no chão. — Senhor, de novo? Nós é que cavamos! Isaque ficou quieto um instante. Dava vontade de ficar e discutir. Mas ele pegou o cajado. — Vamos — disse. — Há mais terra adiante. Chamou aquele poço de Sitna, que quer dizer raiva. E andou mais um pouco com as tendas, as ovelhas e as crianças cansadas. Pela terceira vez, mandou cavar. Os servos cavaram devagar, já sem cantar. Cada um pensava a mesma coisa: será que vão tomar este também? A água apareceu. Todos ficaram parados, olhando o caminho. Esperaram. O vento passou. Uma ovelha baliu. Ninguém veio. Esperaram mais um dia. Ninguém veio brigar. Isaque então riu, um riso largo. Encheu as mãos de água e deixou escorrer. — Este vai se chamar Reobote — disse. — Porque agora o Senhor nos deu um lugar bem largo, e vamos crescer nesta terra. Dali, Isaque subiu para Berseba. Naquela mesma noite, quando tudo estava escuro e quieto, o Senhor apareceu a ele e disse: — Eu sou o Deus de Abraão, seu pai. Não tenha medo, porque eu estou com você. Eu vou abençoar você. Isaque fez ali um altar de pedras e orou ao Senhor. Armou sua tenda. E os servos, sem ninguém mandar duas vezes, começaram a cavar mais um poço. Passado um tempo, apareceu uma visita que ninguém esperava. Era o rei Abimeleque, com um amigo e o chefe dos seus soldados. Isaque ficou surpreso. — Por que vieram me ver? Vocês me mandaram embora. — Nós vimos que o Senhor está com você — respondeu o rei. — Queremos fazer as pazes. Você não nos faz mal, e nós não fazemos mal a você. Isaque não falou dos poços tapados. Não falou de Eseque, nem de Sitna. Mandou preparar um banquete. Naquela noite, comeram e beberam juntos, à luz do fogo. De manhã bem cedo, fizeram a promessa de paz um ao outro. E os visitantes foram embora tranquilos. Naquele mesmo dia, os servos vieram correndo, com as roupas molhadas e sujas de barro. — Achamos água! — gritaram. — Achamos água! Isaque foi até a beira do poço novo e olhou lá dentro. Lá no fundo, a água brilhava, quietinha, com um pedaço de céu dentro.