
Era uma vez uma ovelhinha chamada Fubá. Ela morava num sítio no alto de um morro, com muitas outras ovelhas. A lã de Fubá era amarelada, fofa e muito, muito grossa. Tinha crescido o inverno inteiro. No inverno aquilo era ótimo. Fubá dormia quentinha, mesmo com a geada. Mas agora o verão tinha chegado. O sol batia forte. E a lã pesava como um cobertor molhado. Numa manhã, o portão do galpão se abriu. Lá dentro estava a dona Nair, com um banquinho e uma tesoura grande. Tec, tec, tec, fazia a tesoura. — É dia de tosquia! — baliu a ovelha Graúna, a mais velha do rebanho. E entrou primeiro, sem pressa. Fubá não sabia o que era tosquia. Era a primeira vez dela. Esticou o pescoço e espiou pela fresta da porta. Viu a Graúna deitada de lado. Viu a tesoura passando. Viu a lã caindo no chão, um monte enorme, branco e quieto. O coração de Fubá disparou. Tum, tum, tum. — Vão tirar um pedaço de mim! — pensou. E correu. Correu até o fundo do pasto e se escondeu atrás do cocho de água. Dali ela ouvia tudo. Tec, tec, tec. Uma ovelha entrava. Tec, tec, tec. Outra ovelha entrava. O sol foi subindo. Fubá sentia a lã esquentar. As costas coçavam. A língua ficou seca. Ela bebeu água do cocho, mas o calor não passava. Então uma coisa branca e magrinha passou correndo pelo pasto. Dava pulos. Dava coices no ar. Fubá arregalou os olhos. Que bicho era aquele? O bicho chegou perto e riu. — Sou eu, a Pitanga! Era a amiga de Fubá. Mas estava tão diferente! Lisa, fininha, com as orelhas parecendo maiores. — Doeu? — perguntou Fubá, baixinho. — Não doeu. Faz cócega na barriga — disse Pitanga. — E a tesoura é gelada. Mas olha só! E saiu pulando de novo, leve como um cabrito. Fubá olhou a amiga. Olhou a própria lã, pesada e quente. Deu um passo para fora do esconderijo. Depois parou. Tec, tec, tec. As pernas tremeram. Ela voltou para trás do cocho. O pasto foi ficando cheio de ovelhas brancas e fininhas. Elas deitavam na sombra, fresquinhas. Fubá ficou sozinha no sol, ofegando, com a língua de fora. A velha Graúna veio andando devagar e deitou ali perto. Não disse nada. Só ficou mastigando capim. — Graúna — chamou Fubá. — Você teve medo na primeira vez? — Tive — disse Graúna. — Minhas pernas tremiam tanto que eu quase caí. — E como você entrou? — Tremendo — respondeu a velha ovelha. E continuou mastigando. Fubá olhou para o galpão. A porta ainda estava aberta. Dona Nair limpava a testa com o braço e olhava o pasto, procurando alguém. — Falta uma — disse dona Nair. — Cadê a amarelinha? Fubá engoliu em seco. O coração batia tum, tum, tum. As pernas tremiam. Ela deu um passo. As pernas continuaram tremendo. Deu outro passo. O coração continuou batendo forte. E assim, tremendo e andando, tremendo e andando, Fubá atravessou o pasto inteiro. Parou na porta do galpão. Lá dentro era escuro e cheirava a lã. — Ah, aí está você — disse dona Nair, com a voz mansa. — Vem, pequena. Fubá entrou. Dona Nair deitou a ovelhinha de lado, com cuidado. A mão dela era quente e firme. A tesoura encostou. Era gelada mesmo! Tec, tec, tec. Fubá fechou os olhos bem apertados. Sentiu um puxãozinho. Sentiu uma cócega na barriga. Sentiu um ventinho nas costas, onde antes só havia calor. Tec, tec, tec. — Pronto — disse dona Nair. Fubá abriu um olho. Depois o outro. No chão havia um monte de lã amarelada, do tamanho dela. E ela continuava inteirinha: quatro patas, duas orelhas, um rabinho. Levantou-se. Cambaleou um pouco. O corpo estava tão leve que parecia de outra ovelha. Saiu do galpão. O vento passou pelas costas dela, fresco, fresco. Fubá deu um pulo. Depois outro. Depois um coice no ar, igualzinho à Pitanga. Quando a tarde caiu, o rebanho todo se juntou debaixo da figueira. Fubá deitou entre a Pitanga e a velha Graúna. O céu ficou cor de laranja, depois azul-escuro. Lá no galpão, dona Nair guardava a lã em sacos grandes. O último saco, o mais amarelinho, ficou bem em cima da pilha.