
Era uma vez uma menina chamada Pietra. Ela morava numa rua de pedras, perto de uma praça com uma mangueira muito alta. Pietra parecia uma menina como as outras. Mas tinha um segredo que a rua inteira já conhecia: as mãos dela grudavam em tudo. Grudavam na parede, no muro, no poste, no tronco das árvores. Era só encostar e pronto. Por isso, quando ela vestia a capa verde, todo mundo a chamava de Grude. Grude subia onde ninguém subia. Buscava a bola no telhado da padaria. Buscava o boné no alto do muro. Buscava a peteca na calha. — Deixa com a Grude! — diziam as crianças. — A Grude nunca erra! Ela gostava muito de ouvir aquilo. Num sábado de vento, a praça estava cheia de pipas. A mais bonita era a do Ravi, um menino pequeno, de quatro anos. Era uma pipa vermelha, com uma rabiola comprida de fitas. Ravi tinha feito com o avô, o seu Honório. Tinham levado três tardes. O avô cortou as varetas. Ravi passou a cola e escolheu cada fita. A pipa subiu, subiu, dançou no céu. Então veio um vento torto. A pipa rodopiou, desceu de bico e ficou presa lá no alto da mangueira, no galho mais fino. Ravi puxou a linha. A linha arrebentou. O queixo dele começou a tremer. — Deixa com a Grude! — gritaram as crianças. Grude já vinha correndo, com a capa verde voando. — Não chora, Ravi. Eu pego. Volto num instante e ela vem inteirinha. Encostou as mãos no tronco. Ploc. Ploc. E foi subindo, ploc, ploc, ploc, como uma lagartixa. Lá embaixo, as crianças batiam palmas. Seu Honório segurava o chapéu e olhava para cima. Grude chegou ao galho fino. A pipa estava ali, enroscada nas folhas. Bem de perto era ainda mais bonita. O papel de seda brilhava no sol. — Vem cá, pipa — disse Grude. E pôs a mão aberta bem no meio do papel. Ploc. A mão grudou. Grude puxou. O papel era fininho demais. Rraaac. Um rasgo enorme abriu a pipa de cima a baixo. Um pedaço vermelho ficou colado na palma da mão dela. Grude ficou parada, sem respirar. Olhou para baixo. As folhas da mangueira eram muitas. Ninguém tinha visto. Ninguém tinha ouvido. Ela desenroscou a pipa com as pontas dos dedos, bem devagar. Uma vareta estava solta. A rabiola estava inteira. Mas o rasgo era do tamanho do braço dela. O coração de Grude batia nos ouvidos. A Grude nunca erra, pensou. E agora? Enrolou a pipa na capa, para ninguém ver. Desceu, ploc, ploc, mais devagar do que tinha subido. As crianças fizeram uma roda em volta dela. — Pegou? Pegou? — Peguei — disse Grude. E a voz saiu fininha. — Mas ela... ela está um pouco amassada. Vou levar para casa e arrumar. Amanhã eu trago. Ravi esticou as mãozinhas. — Deixa eu ver? — Amanhã — disse Grude. E saiu andando depressa, apertando a capa contra o peito. — Obrigado, Grude! — gritou Ravi lá de trás. Aquele obrigado doeu mais que um tombo. Em casa, Grude fechou a porta do quarto e abriu a capa em cima da cama. A pipa parecia um passarinho machucado. — Eu arrumo — disse ela. — Arrumo e ninguém fica sabendo. Pegou cola branca. Juntou as duas beiradas do rasgo. Mas as mãos dela grudaram no papel de novo. Ploc. Quando soltou, o rasgo ficou maior. Tentou com fita. A fita enrugou tudo. A pipa ficou torta, com uma cicatriz brilhante no meio. Tentou pintar por cima com canetinha vermelha. A cor era outra. Ficou pior. Grude sentou no chão. Na palma da mão ainda havia um pedacinho de papel vermelho, colado. Ela esfregou, esfregou. Não saía. Na hora do jantar, mexeu a comida de um lado para o outro. — Que foi, filha? — perguntou o pai. — Nada. — Soube que você salvou a pipa do Ravi. Grude olhou para o prato. O arroz ficou embaçado. Naquela noite, ela demorou para dormir. Pensou em dizer que a mangueira tinha rasgado a pipa. Os galhos eram cheios de pontas. Todo mundo ia acreditar. Ela treinou a frase baixinho, no escuro: — Foi o galho. Foi o galho. A frase não cabia direito na boca. Tinha gosto de remédio. Pensou em não ir mais à praça. Mas aí lembrou das mãozinhas do Ravi, esticadas. De manhã, bem cedo, Grude olhou pela janela. A praça ainda estava vazia. Só havia um menino sentado no banco, debaixo da mangueira, balançando as pernas. Era o Ravi. Ao lado dele, seu Honório lia o jornal. Ravi segurava um carretel de linha nova. Grude sentiu a barriga gelar. Vestiu a capa. Tirou a capa. Aquilo não era serviço de capa. Pegou a pipa do jeito que estava, torta, rasgada, com fita e canetinha. Não enrolou em nada. Atravessou a rua com ela nas duas mãos. Ravi pulou do banco. — Minha pipa! Então viu o rasgo. Parou. A boca dele abriu e fechou. — Ravi — disse Grude. A voz tremia. — Não foi a árvore. Fui eu. Eu pus a mão no papel, a mão grudou, e eu puxei. Rasguei a sua pipa. Depois escondi de você. E em casa eu tentei arrumar sozinha e estraguei mais. Abriu a mão e mostrou o pedacinho vermelho, ainda colado. Ravi olhou a pipa. Olhou a mão dela. Os olhos dele se encheram de água, e duas lágrimas escorreram. Grude não saiu correndo. Ficou ali, de pé, com o rosto queimando. — Eu queria que você continuasse achando que eu nunca erro — disse ela, bem baixinho. Seu Honório dobrou o jornal. Olhou a pipa por um bom tempo. Passou o dedo no rasgo. — As varetas estão boas — disse. — A rabiola também. Papel de seda eu tenho em casa. Só não tenho vermelho. Tenho amarelo. Ravi fungou. — Amarelo no meio do vermelho? — Um remendo — disse o avô. — Remendo bem-feito segura firme. Mas eu preciso de alguém que segure o papel enquanto a cola seca. Minhas mãos tremem. Ravi olhou para Grude. Demorou um pouco. Enxugou o nariz na manga. — Ela segura — disse. — A mão dela gruda. Foram os três para a varanda do seu Honório. O avô cortou um pedaço de papel amarelo. Ravi passou a cola, com a língua de fora. E Grude, dessa vez, encostou só a pontinha de dois dedos na beirada, bem de leve, e ficou segurando. Não mexeu. Não puxou. Contou até cem, depois até cem de novo. Quando soltou, o remendo estava liso e firme. Parecia um sol no meio da pipa. À tarde, o vento voltou. Ravi correu pela praça com a linha nova. A pipa vermelha subiu, com o sol amarelo no peito. As crianças apontaram. — Olha a pipa do Ravi! O que aconteceu com ela? — A Grude rasgou — disse Ravi. — E depois ajudou a colar. As crianças olharam para Grude. Ela sentiu o rosto esquentar de novo, mas não abaixou a cabeça. — É verdade — disse. Ninguém falou que a Grude nunca erra. Uma menina só perguntou: — Você pega a minha peteca na calha? — Pego — disse Grude. — Peteca eu pego com a mão. Pipa, agora, só pela vareta. O sol foi baixando atrás da mangueira. As outras pipas desceram uma a uma. A do Ravi ficou por último, lá em cima, pequenininha. Grude sentou no banco ao lado do seu Honório e ficou olhando o pontinho amarelo no céu, até escurecer.