
Era uma vez uma menina chamada Yasmin, que ia fazer cinco anos. A festa era no quintal da casa dela. Havia bolo de chocolate, brigadeiro e balões. Muitos balões. Yasmin tinha pedido balões de todas as cores, amarrados na cerca, no varal e nas cadeiras. Os primos chegaram. Os amigos da escola chegaram. E chegou também o Otávio, o primo que morava longe e que Yasmin quase não via. — Vamos brincar de estourar balão! — gritou Yasmin. Era a brincadeira preferida dela. Cada um sentava num balão com força. Pou! Quem estourasse mais ganhava. As crianças correram para a cerca. Pou! Pou! Todo mundo ria. Menos o Otávio. No primeiro pou, ele deu um pulo. No segundo, correu para debaixo da mesa do bolo e ficou lá, atrás da toalha comprida. — O Otávio é chato — disse um menino. — Não quer brincar. Yasmin franziu a testa. A festa era dela. Ela queria todo mundo brincando. Foi até a mesa e levantou a toalha. — Sai daí, Otávio! É legal! Otávio balançou a cabeça. Não, não. — Vem! — Yasmin pegou a mão dele e puxou. Otávio veio, arrastando os pés. Yasmin pôs um balão azul na frente dele. — Senta em cima. É fácil! Bem nessa hora, alguém estourou um balão logo atrás. POU! Otávio se encolheu todo. Soltou a mão de Yasmin, voltou correndo para debaixo da mesa e começou a chorar. Yasmin ficou parada com o balão azul na mão. Sentiu um aperto esquisito no peito. Ela só queria que ele brincasse! — Deixa ele — disse o menino. — É chorão. Mas Yasmin não conseguiu deixar. Ficou olhando a toalha da mesa, que mexia um pouquinho. Devagar, ela se abaixou e entrou lá embaixo também. Dessa vez não puxou ninguém. Só sentou do lado do primo. Debaixo da mesa era escurinho. Otávio estava com os joelhos dobrados e as duas mãos apertando as orelhas. Os ombros dele subiam e desciam. Lá fora, pou! Otávio apertou os olhos. O corpo inteiro dele pulou. Yasmin olhou bem. Ele não estava emburrado. Não estava fazendo birra. As mãos dele não saíam das orelhas. Pou! Dessa vez, Yasmin prestou atenção no barulho. Ali embaixo, o estouro batia na madeira da mesa e parecia maior. Ela piscou sem querer. Lembrou do dia dos fogos, no fim do ano. Ela tinha se escondido no colo da mãe, com o coração batendo forte. Não tinha achado graça nenhuma. Yasmin tocou no braço do primo, de leve. Otávio abriu um olho. Ela apontou para as orelhas dele. Depois fez um pou só com a boca, sem som, e uma careta. Otávio fez que sim com a cabeça, bem devagar. — Dói? — cochichou Yasmin. — Dói aqui dentro — cochichou Otávio. E mostrou a orelha, e depois o peito. Yasmin ficou quieta um instante. Olhou pelas beiradas da toalha. Viu os pés das crianças correndo. Viu os balões que ainda sobravam na cerca: uns dez, quinze. Era a brincadeira preferida dela. Era o aniversário dela. Pou! Otávio se encolheu de novo. Yasmin saiu de debaixo da mesa e bateu palmas. — Parou! Parou! Brincadeira nova! — Qual? — perguntaram as crianças. Yasmin pensou depressa. Soltou um balão amarelo da cerca e jogou para o alto. — Balão não pode cair! Quem deixar encostar no chão sai. E não pode estourar. Tem que bater bem de levinho. As crianças correram. O balão amarelo subiu, desceu, subiu. Alguém soltou um verde. Depois um vermelho. Logo havia cinco balões no ar e um monte de braços esticados. Não tinha pou. Só tinha risada e um barulhinho macio: tum, tum, tum. Yasmin voltou até a mesa e levantou a pontinha da toalha. — Agora não estoura — disse. — Eu fico do seu lado. Otávio tirou uma das mãos da orelha. Escutou. Tirou a outra. Espiou o quintal. Um balão roxo vinha caindo bem na direção da mesa. Otávio esticou o braço e deu um tapinha. O balão subiu de novo. Ele saiu de debaixo da mesa de joelhos. Depois ficou de pé. Brincaram até o céu escurecer. Otávio foi quem deixou o balão cair menos vezes. Tinha um jeito de bater bem de mansinho, que ninguém conseguia imitar. Na hora do parabéns, a mãe de Yasmin acendeu a vela e chamou todo mundo. Yasmin procurou o primo no meio das crianças e puxou a cadeira ao lado da dela. — Senta aqui — disse. — E na hora das palmas, eu aviso antes.