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Histórias para a hora de dormir
Samira, Ivo e o Cesto de Ovos
Era uma vez
Samira, Ivo e o Cesto de Ovos
Confiança9 min · 3-6 anos (geral)
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Era uma vez…

Era uma vez uma menina chamada Samira, que morava com a avó Nena num sítio no alto do morro. As galinhas da avó Nena botavam os ovos mais bonitos da região. Eram ovos grandes, de casca marrom, ainda quentinhos de manhã. Todo sábado, a avó levava os ovos para a feira da vila. Mas, naquele sábado, o joelho da avó acordou doendo. — Hoje eu não desço o morro — disse ela. — Samira, você leva o cesto? Samira estufou o peito. Levar o cesto sozinha! Ela puxou a alça com as duas mãos. O cesto nem saiu do chão. Puxou de novo, com o rosto vermelho. Nada. Eram ovos demais. — Sozinha não dá — disse a avó. — O cesto vai pendurado numa vara. Uma criança na frente, outra atrás. O Ivo vai com você. Samira torceu o nariz. Ivo era o menino novo do sítio vizinho. Era menor que ela e quase não falava. Vivia olhando para o chão. — Ele é muito pequeno, vó. E nem conhece o caminho. — Conhece, sim. Ele desce esse morro todo dia para buscar água. Ivo chegou com um chapéu de palha maior que a cabeça. A avó passou a vara pela alça do cesto. Ivo pegou a ponta da frente. Samira pegou a ponta de trás. O cesto ficou balançando no meio dos dois, cheio até a boca. — Devagar e juntos — disse a avó. — Dona Olinda espera vocês na barraca azul. Eles começaram a descer. Samira logo percebeu um problema. O cesto era alto e ficava bem na frente do seu nariz. Ela não via o chão. Não via as pedras. Só via ovos e, lá adiante, o chapéu do Ivo. — Pedra — disse Ivo, bem baixinho. Samira não ouviu. Ela estava ocupada esticando o pescoço para o lado, tentando ver o caminho. O pé dela bateu na pedra. A vara deu um tranco. Os ovos fizeram tec-tec-tec uns nos outros. — Cuidado! — gritou Samira. — Você nem avisou! — Eu avisei — disse Ivo. — Eu falei pedra. Samira bufou. Como ela ia acreditar num aviso tão baixinho? E se ele esquecesse de avisar? Era melhor ela mesma olhar. Então foi andando torta, com a cabeça para fora, espiando por um lado e pelo outro. Andando torta, a vara ficava torta também. O cesto escorregou para a ponta dela. Um ovo rolou lá de cima, caiu no chão e fez ploft. Os dois pararam. A gema amarela escorria na terra. — Um ovo a menos — disse Samira, com a voz tremendo. — Assim não dá. Eu vou na frente. Na frente eu vejo tudo. Trocaram de lugar. Agora Samira ia na frente, e era ótimo. Ela via o caminho inteiro. Via as borboletas, via as vacas no pasto, via a fumaça das casas lá embaixo. Pulou uma raiz grossa sem nem pensar. Atrás dela, Ivo não via raiz nenhuma. O pé dele prendeu. Ele caiu de joelhos, e a vara puxou o ombro de Samira para trás. Os ovos fizeram tec-tec-tec de novo. Samira se virou. Ivo esfregava o joelho ralado. Ele não reclamou. Só olhou para ela e disse: — Você não falou raiz. Samira abriu a boca para responder e fechou de novo. Era verdade. Ela tinha visto a raiz. Tinha pulado a raiz. E não tinha dito nada. — Desculpa — disse ela. — Eu esqueci que você não enxerga daí. — Eu sei como é — disse Ivo. — Daí de trás a gente só vê ovo. Samira deu uma risadinha. Ivo também. Ela pegou uma folha larga, molhou na bica da beira do caminho e limpou o joelho dele. Sentaram um pouco numa pedra. O cesto descansava entre os dois. — Na frente é mais difícil do que parece — disse Samira. — Tem que olhar por dois. — E atrás tem que escutar por dois — disse Ivo. — Então vamos combinar. Quem vai na frente fala alto. Quem vai atrás responde. Aí quem está na frente sabe que o outro ouviu. Ivo pensou e fez que sim com o chapéu. — Quem vai na frente? — perguntou ele. Samira olhou para o caminho. Olhou para o joelho ralado. Lembrou que Ivo descia aquele morro todo dia. — Você — disse ela. — Você conhece melhor. Seguiram. Samira voltou para trás do cesto, e o mundo virou ovo outra vez. O coração dela batia depressa. Dava muita vontade de espiar pelo lado. — Pedra! — disse Ivo, agora com voz forte. — Pedra! — respondeu Samira, e levantou bem o pé. Passou. Nem encostou. — Buraco à direita! — Buraco à direita! Ela deu um passo para a esquerda. Passou de novo. A vara seguia retinha, e os ovos iam quietos, sem tec-tec nenhum. Chegaram ao riacho. Era raso, com a água pela canela, e não havia ponte. Só pedras redondas, uma depois da outra. Ivo parou. — São cinco pedras — disse ele. — Eu conto cada uma. Passo largo na terceira. — Passo largo na terceira — repetiu Samira. — Uma. Samira esticou o pé sem ver nada e achou a pedra, firme e fria. — Duas. Achou. — Três. Passo largo! Ela abriu bem a perna. O pé pousou certinho. A água corria fazendo barulho dos dois lados, mas ela nem olhou. — Quatro. Cinco. Terra! — Terra! — gritou Samira, rindo. Tinha atravessado um riacho inteiro sem ver uma pedra sequer. Faltava o pedaço mais difícil. Antes da vila, o caminho cruzava um brejo por cima de uma tábua comprida e estreita. A tábua ficava baixinha, a um palmo do chão. Mas embaixo era lama mole, dessas que engolem o pé até o joelho. Samira sentiu as pernas bambas. Na tábua não dava para andar torta. Não dava para espiar. Se a vara entortasse, o cesto inteiro ia para a lama. — Ivo — chamou ela —, eu não vejo nada. Nadinha. Ivo parou na beira da tábua. Não deu nenhum passo. — Eu vejo — disse ele. — E eu só ando quando você responder. Se você não responder, eu fico parado. Pode ser o dia inteiro. Samira respirou fundo. Soltou o pescoço, que estava esticado desde lá de cima. Olhou só para o chapéu de palha na sua frente. — Pode ir — disse ela. — Tábua. Um passo. — Um passo. — Outro. A tábua balança aqui, mas aguenta. A tábua balançou. Samira quis parar. Mas Ivo tinha dito que aguentava. E Ivo não tinha errado nenhum aviso desde o combinado. — Balança, mas aguenta — repetiu ela, e pisou. — Tem um nó na madeira. Pé para cá. — Pé para cá. Passo a passo, voz a voz, os dois foram atravessando. Samira não olhou para a lama nem uma vez. Escutava. Respondia. Pisava. — Terra! — disse Ivo. — Terra! — disse Samira, e só então viu que estava do outro lado. Na feira, dona Olinda contou os ovos na barraca azul, um por um. — Só falta um! — disse ela, admirada. — Nem a Nena chega com tão poucos quebrados. Qual é o segredo? Samira e Ivo se olharam. — Um olha e o outro escuta — disse Ivo. — E os dois falam alto — completou Samira. Dona Olinda deu um pãozinho doce para cada um e um pacote de farinha para a avó. A volta foi morro acima, com o cesto leve. Nem precisava de vara. Mas, quando chegaram ao riacho, Samira parou. — Ivo, agora eu vou na frente e você fecha os olhos. Quero ver se eu aprendi a avisar. Ivo riu, apertou o chapéu na cabeça e fechou os olhos. Samira segurou a mão dele. — Uma — disse ela, bem alto. — Duas. Três, passo largo! — Passo largo! — respondeu Ivo. Ele chegou do outro lado com os pés sequinhos. Quando alcançaram o sítio, o sol já se escondia atrás do morro e as galinhas subiam no poleiro. A avó Nena esperava na porteira, com o joelho enrolado num pano quente. — E então? — perguntou ela. — Só um ovo, vó. E foi antes da gente combinar. — Combinar o quê? Samira olhou para Ivo. Ivo olhou para Samira. — Sábado que vem a gente mostra — disse ela. Naquela noite, Samira deitou cansada e contente. Lá fora os grilos cantavam. Ela fechou os olhos e ainda escutou, bem de longe, uma voz dizendo: um passo, outro passo, terra.

Para conversar
Samira só via ovos e precisou andar ouvindo a voz do Ivo. Quem você escolheria para guiar você de olhos fechados? Por quê?
Esta história também fala deRespeitoHumildade
Era uma vez… Terminamos!
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