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Histórias para a hora de dormir
Pilar e o Portão Azul
Era uma vez
Pilar e o Portão Azul
Paciência9 min · 3-6 anos (geral)
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Era uma vez…

Era uma vez uma princesa chamada Pilar, que morava num castelo com um jardim enorme. Na entrada do jardim havia um portão de ferro muito antigo. Um dia ele tinha sido azul. Agora estava desbotado, cheio de ferrugem, e rangia feito um gato bravo. Dali a quatro dias seria a Festa das Lanternas. O reino inteiro ia passar por aquele portão. — Mestre Quirino vai pintar o portão — avisou a rainha. — E ele aceitou uma ajudante. Pilar deu três pulos. A ajudante era ela! Mestre Quirino era o pintor do castelo. Tinha as mãos manchadas de todas as cores e nunca tinha pressa. Ele entregou a Pilar um pincel pequeno e um avental comprido. — O portão leva três demãos de tinta — explicou ele. — Uma por dia. Entre uma e outra, a tinta dorme. E ninguém acorda a tinta. — Como é que a tinta dorme? — Quietinha, secando. Leva um dia e uma noite. Pilar achou aquilo muito tempo. Mas pegou o pincel e pintou as grades de baixo, enquanto mestre Quirino pintava as de cima. O azul era lindo, da cor do céu no fim da tarde. Na hora do almoço, a primeira demão estava pronta. De tarde, Pilar voltou ao jardim só para olhar. O portão brilhava, molhado. Será que já tinha secado? Parecia que sim. Ela precisava saber. Esticou o dedo e encostou só um pouquinho. A tinta grudou. Quando Pilar puxou a mão, ficou uma marca redonda na grade, com todas as risquinhas do dedo dela. E o dedo ficou azul. Ela tentou alisar com a outra mão. Ficaram duas marcas, e um borrão no meio. Na manhã seguinte, mestre Quirino viu as marcas. Viu também o dedo azul que Pilar escondia atrás do avental. Ele não brigou. Pegou uma lixa. — Tinta acordada antes da hora fica assim — disse. — Agora a gente lixa esse pedaço e pinta outra vez. Pilar lixou. Lixar era chato e fazia cócegas no nariz. Depois pintaram a segunda demão, e o portão ficou mais azul ainda. — Amanhã, a última — disse o pintor. — Hoje ela dorme. Pilar se sentou no banco do jardim, de frente para o portão. Decidiu que não ia encostar. Ia só vigiar. Vigiou um tempão. O sol andou um pouquinho no céu. A tinta continuava brilhando. — Seca logo — pediu ela, baixinho. A tinta não secou logo. Então Pilar teve uma ideia. Correu, buscou o leque da rainha e abanou o portão com força. Abanou até o braço doer. O vento do leque levantou a poeira do caminho e três folhinhas secas. A poeira e as folhinhas voaram direto para a grade e ficaram coladas no azul. Pilar olhou para o leque. Olhou para o portão cheio de pintinhas. Os olhos dela encheram de água. Mestre Quirino veio devagar, tirou as folhinhas com a ponta da espátula e entregou a lixa de novo. — Eu só queria ajudar a secar — disse Pilar. — Eu sei. Mas a tinta seca sozinha. Esse trabalho é dela. O nosso é outro. — Qual é o nosso? — Achar o que fazer enquanto isso. Ele apontou para um monte de lanternas de papel, guardadas debaixo da escada. Estavam em branco, esperando a festa. No terceiro dia, pintaram a última demão. O portão ficou tão bonito que os jardineiros pararam para ver. Faltava só um dia e uma noite. Pilar levou as lanternas para o banco e abriu as tintinhas. Pintou um peixe numa. Pintou uma lua em outra. De vez em quando, levantava os olhos para o portão. O dedo coçava de vontade. Ela enfiava a mão no bolso do avental e pintava mais uma lanterna. No meio da tarde, o priminho Abel chegou correndo pelo jardim. Ele tinha dois anos e uma mãozinha gorducha, esticada bem na direção do azul. — Bonito! — gritou ele. Pilar largou o pincel e correu. Chegou primeiro. Ficou na frente do portão, de braços abertos. — A tinta está dormindo, Abel. Vem, eu te mostro uma coisa que já pode pegar. Deu a ele a lanterna do peixe. Abel abraçou a lanterna e esqueceu o portão. Quando o céu ficou alaranjado, Pilar já tinha pintado doze lanternas. Nem viu a tarde passar. Foi dormir sem encostar no portão nem uma vez. De manhã, mestre Quirino a chamou. — Agora pode. Pilar encostou o dedo, bem devagar. A grade estava lisa, seca e fresquinha. O dedo voltou limpo. Ela passou a mão inteira, de cima a baixo. O portão abriu sem ranger. Lá embaixo, quase no chão, sobrava uma marquinha redonda da primeira tarde. A lixa não tinha alcançado aquele cantinho. — Quer que eu cubra? — perguntou o pintor. Pilar pensou um pouco. — Deixa. Essa é minha. Naquela noite, o reino inteiro passou pelo portão azul. Doze lanternas pintadas balançavam nas grades, com peixes, luas e estrelas. E Pilar atravessou por último, bem devagar, com a mão no bolso do avental.

Para conversar
Pilar pintou lanternas para a espera passar. O que você gosta de fazer quando precisa esperar muito por alguma coisa?
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