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Era uma vez
Histórias para a hora de dormir
Quica e as Frases Pela Metade
Era uma vez
Quica e as Frases Pela Metade
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Era uma vez…

Era uma vez uma maritaca filhote chamada Quica, que morava numa mata cheia de goiabeiras. Quica era verde, ligeira e muito esperta. Tão esperta que nunca esperava ninguém terminar de falar. Bastava alguém começar uma frase, e ela já gritava: — Já sei! E saía voando. Quem mais sofria com isso era o velho macaco bugio Baltazar. Ele conhecia a mata inteira e gostava de avisar os filhotes das coisas. Só que Baltazar falava devagar. Bem devagar. Entre uma palavra e outra, cabia um bocejo. Numa manhã, ele chamou do galho mais alto: — Quica... as goiabas... do outro lado do rio... estão... — Maduras! Já sei! — gritou Quica, e zuniu para lá. — ...verdes ainda — terminou Baltazar, para ninguém. Quica mordeu a primeira goiaba com vontade. Era dura e azeda de entortar o bico. Ela cuspiu, fez careta e voltou com a língua amarrada. De tarde, Baltazar tentou outra vez. — Quica... hoje... lá pelo fim do dia... vai... — Ventar! Já sei! E ela foi brincar bem no alto do ipê, onde o vento é melhor. — ...chover forte — terminou Baltazar, balançando a cabeça. Choveu forte. Quica chegou ao ninho pingando, com as penas grudadas, parecendo um abacate molhado. No dia seguinte, o preá Jurandir veio correndo pelo capim. Jurandir era o melhor amigo de Quica e tinha uma novidade enorme. Dava para ver pelos bigodes, que tremiam. — Quica, você não sabe! Ontem eu estava na beira do brejo e apareceu um... — Um sapo! Já sei! — Não. Apareceu um... — Um jacaré! Você correu! Já sei! — Não era jacaré. Era... — Uma cobra! Uma garça! Um peixe voador! Jurandir parou. Os bigodes dele caíram. — Deixa — disse ele, baixinho. — Você nunca me deixa chegar no fim. A história era minha. E entrou na toca. Quica ficou sozinha no capim. Esperou Jurandir voltar. Ele não voltou. Ela nem sabia o que tinha aparecido no brejo. Dessa vez, ela não sabia mesmo. Sentiu um aperto esquisito debaixo das penas. Lembrou dos bigodes do amigo caindo, palavra por palavra. Lembrou do velho Baltazar falando sozinho no galho. Voou até a toca e chamou: — Jurandir? Conta de novo? Eu fico de bico fechado. Lá de dentro, nada. Só um par de olhinhos desconfiados. Nessa hora, a voz grossa de Baltazar veio lá do alto. — Quica... Jurandir... atrás da pedra grande... O bico de Quica abriu sozinho. Ela ia gritar que era onça. Mas olhou para a toca do amigo e fechou o bico com força. Apertou tanto que até tremeu. — ...tem um pé... — continuou o bugio. Um pé de quê? De goiaba? De manga? As asas de Quica queriam voar. Ela se agarrou num galhinho com as duas patas. — ...de pitanga... carregadinho... Agora sim! Ela já ia soltar o galho. Mas Baltazar ainda estava de boca aberta. Vinha mais palavra. Quica esperou. Um besouro passou. Uma folha caiu. — ...mas as doces... são as de baixo... as que só o preá alcança. Baltazar fechou a boca. Tinha acabado. — Obrigada, seu Baltazar! — disse Quica. Era a primeira vez que ela ouvia um aviso dele até o fim. O bugio arregalou os olhos e quase caiu do galho. Jurandir pôs o focinho para fora da toca. — Você ouviu? — disse Quica. — As doces são as de baixo. Sem você, eu só ia comer das azedas. Foram os dois até a pedra grande. O pé de pitanga estava vermelhinho. Jurandir colheu as de baixo e rolou algumas para a amiga. Eram as pitangas mais doces da mata. Com o bico cheio, Quica perguntou: — O que foi que apareceu no brejo? Jurandir olhou para ela, desconfiado. Quica fechou o bico e ainda botou uma asa por cima. — Apareceu um... — começou ele, e esperou. Quica não disse nada. — ...um filhote de capivara, deste tamanhinho, que tinha se perdido da mãe. Eu levei ele de volta, pelo caminho das taboas. E a mãe capivara me deu uma carona nas costas até aqui! — Nas costas? — Quica arregalou os olhos. — Essa eu nunca ia adivinhar. Jurandir contou tudo, do começo ao fim, com os bigodes tremendo de novo. Contou duas vezes. O sol foi descendo atrás das goiabeiras, e a mata foi ficando quieta. Quica ouviu cada palavra. E, quando a história acabou, pediu a terceira.

Para conversar
Jurandir disse que a história era dele. Como você se sente quando alguém não deixa você terminar de falar?
Esta história também fala dePaciênciaEmpatia
Era uma vez… Terminamos!
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