
Era uma vez um menino chamado Heitor, que passava todo dia na frente da loja de bicicletas. Na vitrine havia uma bicicleta vermelha, com fitinhas no guidão e uma buzina brilhante. Heitor grudava o nariz no vidro. — Meu aniversário está chegando — dizia ele, para a bicicleta ouvir. No dia do aniversário, Heitor acordou antes do sol. Na sala, encostada na parede, havia uma bicicleta com um laço enorme. Só que ela não era vermelha. Era verde, de um verde meio apagado. Não tinha fitinhas. A campainha tinha um arranhão. E Heitor conhecia aquela bicicleta. Era a bicicleta velha do primo Vicente. — O Vicente cresceu e ela ficou pequena para ele — explicou o pai. — Ele e o tio Nelson quiseram que fosse sua. O tio Nelson e o Vicente estavam ali, sorrindo, esperando. Heitor olhou para o chão. — Obrigado — disse, com uma voz que quase não saiu. Depois foi para o quintal e se sentou no degrau, de costas para a sala. Na garganta dele tinha um nó do tamanho de uma buzina brilhante. O pai trouxe a bicicleta para fora e a deixou ali perto, sem dizer nada. Heitor não queria olhar. Mas olhou um pouquinho, de lado. Os pneus eram pretos e cheios de dentinhos. Pneus novos. A corrente brilhava de óleo. O banco tinha uma capa costurada à mão, com linha azul. Ele chegou mais perto. Debaixo do banco, alguém tinha colado um adesivo de foguete. No guidão, onde a mão segura, a tinta estava gasta bem no formato de dois dedos. Vicente veio se sentar no degrau. — O foguete é o meu preferido — disse ele. — Colei no dia em que aprendi a andar sem rodinha. Pensei em tirar. Mas achei que você ia gostar. — E os pneus? — Meu pai trocou. Ficou três noites na garagem, depois do trabalho. Eu segurei a lanterna. Ele errou a corrente duas vezes e ficou com a mão toda preta. Heitor olhou pela janela. Lá dentro, o tio Nelson tomava café. As unhas dele ainda estavam escuras de graxa. — E a capa do banco? — A vó. Disse que o banco velho pinicava. Heitor passou a mão na capa azul. Depois subiu na bicicleta, só para ver. O pé alcançava o pedal direitinho. O pai pôs o capacete nele e segurou atrás. Foram pela calçada até a esquina. Na volta, o pai soltou sem avisar, e Heitor nem percebeu. O vento batia no rosto. A corrente fazia um zunido macio. A campainha arranhada fazia trim-trim mais alto que qualquer buzina. Heitor foi e voltou pela calçada quatro vezes, com o pai olhando do portão. Na quinta, parou na frente do tio Nelson, ainda sem fôlego. — Tio, olha! A corrente nem faz barulho! — Três noites — disse o tio, mostrando as unhas, e riu. Heitor deitou a bicicleta no gramado e abraçou o tio pela cintura, com força. Depois abraçou o Vicente, que ficou sem jeito. Dessa vez, a voz saiu inteira: — Obrigado! De tarde, depois do bolo, Heitor entrou na garagem. No canto estava o seu velocípede amarelo, o de três rodas. Fazia tempo que os joelhos dele batiam no guidão. Ele ficou olhando para o velocípede. Depois foi buscar um balde e um pano. — Pai, me ajuda com o óleo? — Ajudo — disse o pai, e pegou a latinha na prateleira. Heitor esfregou as rodas até a lama sair. Lustrou o guidão. O pai pingou óleo nos pedais. Faltava uma coisa. Heitor remexeu a gaveta dos adesivos e escolheu o melhor que tinha, uma estrela dourada. Colou bem debaixo do banco. A vizinha Maitê tinha três anos e vivia espiando pela cerca. Heitor e o pai empurraram o velocípede até o portão dela e tocaram a campainha. — É para você — disse Heitor. — A estrela é a minha preferida. Maitê subiu no velocípede e saiu pedalando torto pela calçada, rindo alto. Quando o céu escureceu, Heitor guardou a bicicleta verde ao lado da cama. Antes de dormir, esticou a mão e tocou o foguete debaixo do banco. Lá fora, ainda dava para ouvir um velocípede rangendo e uma risada pequena. Na semana seguinte, ele passou com o pai na frente da loja. A bicicleta vermelha continuava na vitrine. Heitor tocou a campainha arranhada, trim-trim, e seguiu pedalando.